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A solidão começou para o verdadeiro católico. Tomem
nota: — ainda seremos o maior povo ex-católico do mundo.
O casamento já é indissolúvel na véspera.
A educação sexual só devia ser dada por um veterinário.
Antigamente, o defunto tinha domicílio. Ninguém o vestia
às pressas, ninguém o despachava às escondidas.
Permanecia em casa, dentro de um ambiente em que até os
móveis eram cordiais e solidários. Armava-se a
câmara-ardente num doce sala de jantar ou numa cálida
sala de visitas, debaixo dos retratos dos outros mortos.
Escancaravam-se todas as portas, todas as janelas; e
esta casa iluminada podia sugerir, à distância, a idéia
de um aniversário, de um casamento ou de um velório
mesmo.
Sou contra a pílula, e ainda mais contra a ciência que a
inventou; a saúde pública que a permite; e o amor que a
toma.
Diz o dr. Alceu que a Revolução Russa é "o maior
acontecimento do século". Como se engana o velho mestre!
O "maior acontecimento do século" é o fracasso dessa
mesma revolução.
O dr. Alceu fala a toda hora na marcha irreversível para
o socialismo. Afirma que a Revolução Russa também é
irreversível. Em primeiro lugar, acho admirável a
simplicidade com que o mestre administra a História, sem
dar satisfações a ninguém, e muito menos à própria
História. Não lhe faria mal nenhum um pouco mais de
modéstia. De mais a mais, quem lhe disse que a Revolução
Russa é irreversível?
Só Deus sabe que fiz o diabo para ser amigo do nosso
Tristão de Athayde. Durante cinco anos, telefonei-lhe em
cada véspera de Natal: — "Sou eu, dr. Alce. Vim
desejar-lhe um maravilhoso Natal para si e para os seus"
etc etc. Tudo inútil. O dr. Alceu trancou-me o coração.
Até que, na última vez, disse algo que, para mim, foi
uma paulada: — "Ah, Nelson! Você aí, nessa lama!". O
mestre insinuara que a minha alma é um mangue, um
pântano, um lamaçal. E, por certo, ao sair do telefone,
foi se vacinar contra o tifo, a malária e a febre
amarela que vivo a exalar. Pois é o que nos separa
eternamente, a mim e ao dr. Alceu: — de um lado, a minha
lama, e , de outro, a sua luz.
Outrora, o remador de Bem-Hur era um escravo, mas
furioso. Remava as 24 horas por dia, porque não havia
outro remédio e por causa das chicotadas. Mas, se
pudesse, botaria formicida no café dos tiranos. Em nosso
tempo, o socialismo inventou outra forma de escravidão:
— a escravidão consentida e até agradecida.
A Igreja está ameaçada pelos padres de passeata, pelas
freiras de minissaia e pelos cristãos sem Cristo. Hoje,
qualquer coroinha contesta o Papa.
O padre de passeata é hoje, uma ordem tão definida, tão
caracterizada como a dos beneditinos, dos franciscanos,
dos dominicanos e qualquer outra. E está a serviço do
ódio.
Os padres exigem o fim do celibato. Portanto, odeiam a
castidade. Imaginem um movimento de meretrizes a favor
da castidade. Pois tal movimento não me espantaria mais
do que o motim dos padres contra a própria.
Os padres querem casar. Mas quem trai um celibato de 2
mil anos há de trair um casamento em quinze dias.
O tempo das passeatas acabou, mas o padre de passeata
continua, inexpugnável no seu terno da Ducal e vibrando,
como um estandarte, um Cristo também de passeata.
D. Helder só olha o céu para saber se leva ou não o
guarda-chuva.
D. Helder já esqueceu tanto a letra do Hino Nacional
quanto a da Ave-Maria. Prega a luta armada, a aliança do
marxismo e do cristianismo. Se ele pegasse uma carabina
e fosse para o mato, ou para o terreno baldio, dando
tiros em todas as direções, como um Tom Mix, estaria
arriscando a pele, assumindo uma responsabilidade
trágica e eu não diria nada. Mas não faz isso e se
protege com a batina. Sabe que um D. Helder sem batina,
um D. Helder almofadinha, de paletó ou de terno da
Ducal, não resistiria um segundo. Nem um cachorro
vira-lata o seguiria.
Estou imaginando se, um dia, Jesus baixasse à Terra.
Vejo Cristo caminhando pela rua do Ouvidor. De passagem,
põe uma moeda no pires de um ceguinho. Finalmente, na
esquina a Avenida, Jesus vê D. Helder. Corre para ele;
estende-lhe a mão. D. Helder responde: — "Não tenho
trocado!". E passa adiante.
No Brasil, só se é intelectual, artista, cineasta,
arquiteto, ciclista ou mata-mosquito com a aquiescência,
com o aval das esquerdas.
Não há ninguém mais bobo do que um esquerdista sincero.
Ele não sabe nada. Apenas aceita o que meia dúzia de
imbecis lhe dão para dizer.
As feministas querem reduzir a mulher a um macho
mal-acabado.
Considero o filho único um monstro de circo de
cavalinhos, um mártir, mártir do pai, mártir da mãe e
mártir dessas circunstâncias. As famílias numerosas são
muito mais normais, mais inteligentes e mais felizes.
Na velha Rússia, dizia um possesso dostoievskiano: — "Se
Deus não existe tudo é permitido". Hoje, a coisa não se
coloca em termos sobrenaturais. Não mais. Tudo agora é
permitido se houver uma ideologia.
Quando os amigos deixam de jantar com os amigos [por
causa da ideologia], é porque o país está maduro para a
carnificina.
Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os
melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o
punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.
[Até o século XIX] o idiota era apenas o idiota e como
tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o
próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto
nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha,
ou tirar um cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil
anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da
vida. Simplesmente, não pensava. Os "melhores" pensavam
por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a
Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes
descobriram que são em maior número e sentiram a
embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele
sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na
gravata, passou a existir socialmente, economicamente,
politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte,
a explosão triunfal dos idiotas.
Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os
idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação
realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota
ou o idiota o extermina.
Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via
Láctea.
Ainda ontem dizia o Otto Lara Resende: — "O cinema é uma
maneira fácil de ser intelectual sem ler e sem pensar".
Mas não só o cinema dá uma carteirinha de intelectual
profundo. Também o socialismo. Sim, o socialismo é outra
maneira facílima de ser intelectual sem ligar duas
idéias.
Eu amo a juventude como tal. O que eu abomino é o jovem
idiota, o jovem inepto, que escreve nas paredes "É
proibido proibir" e carrega cartazes de Lenin, Mao,
Guevara e Fidel, autores de proibições mais brutais.
Com o tempo e o uso, todas as palavras se degradam. Por
exemplo: — liberdade. Outrora nobilíssima, passou
por todas as objeções. Os regimes mais canalhas nascem e
prosperam em nome da liberdade.
Ah, os nossos libertários! Bem os conheço, bem os
conheço. Querem a própria liberdade! A dos outros, não.
Que se dane a liberdade alheia. Berram contra todos os
regimes de força, mas cada qual tem no bolso a sua
ditadura.
Como a nossa burguesia é marxista! E não só a alta
burguesia. Por toda parte só esbarramos, só tropeçamos
em marxistas. Um turista que por aqui passasse havia de
anotar em seu caderninho: — "O Brasil tem 100 milhões de
marxistas".
Hoje, o não-marxista sente-se marginalizado, uma espécie
de leproso político, ideológico, cultural etc etc. Só um
herói, ou um santo, ou um louco, ousaria confessar
publicamente: — "Meus senhores e minhas senhoras, eu não
sou marxista, nunca fui marxista. E mais: — considero os
marxistas de minhas relações uns débeis mentais de babar
na gravata".
No Brasil, o marxismo adquiriu uma forma difusa,
volatizada, atmosférica. É-se marxista sem estudar, sem
pensar, sem ler, sem escrever, apenas respirando.
Marx roubou-nos a vida eterna, a minha e a do Otto Lara
Resende. Pois exigimos que ele nos devolva a nossa alma
imortal.
As cartas de Marx mostram que ele era imperialista,
colonialista, racista, genocida, que queria a destruição
dos povos miseráveis e "sem história", os quais chama de
"piolhentos", de "anões", de "suínos" e que não mereciam
existir. Esse é o Marx de verdade, não o da nossa
fantasia, não o do nosso delírio, mas o sem retoque, o
Marx tragicamente autêntico.
O mundo é a casa errada do homem. Um simples resfriado
que a gente tem, um golpe de ar, provam que o mundo é um
péssimo anfitrião. O mundo não quer nada com o homem,
daí as chuvas, o calor, as enchentes e toda sorte de
problemas que o homem encontra para a sua acomodação,
que aliás, nunca se verificou. O homem deveria ter
nascido no Paraíso.
Nas velhas gerações, o brasileiro tinha sempre um soneto
no bolso. Mas os tempos parnasianos já passaram. Hoje,
ferozmente politizado, ele tem sempre à mão um comício.
Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o
psicanalista.
É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face
linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se,
ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria
hediondez.
A Rússia, a China e Cuba são nações que assassinaram
todas as liberdades, todos os direitos humanos, que
desumanizaram o homem e o transformaram no anti-homem,
na antipessoa. A história socialista é um gigantesco
mural de sangue e excremento.
Tão parecidos, Stalin e Hitler, tão gêmeos, tão
construídos de ódio. Ninguém mais Stalin do que Hitler,
ninguém mais Hitler do que Stalin.
Vocês se lembram da fotografia de Stalin e Ribbentropp
assinando o pacto nazi-comunista. Ninguém pode esquecer
o riso recíproco e obsceno. Se faltou alguém em
Nuremberg — foi Stalin.
Havia, aqui, por toda parte, "amantes espirituais de
Stalin". Eram jornalistas, intelectuais, poetas,
romancistas. Outros punham nas paredes retratos de
Stalin. Era uma pederastia idealizada, utópica e
fotográfica.
Sou um pobre nato e, repito, um pobre vocacional. Ainda
hoje o luxo, a ostentação, a jóia, me confundem e me
ofendem.
Hoje, o sujeito prefere que lhe xinguem a mãe e não o
chamem de reacionário.
Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é
profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com
generosa abundância.
O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma
crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente. |
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